quinta-feira, 12 de maio de 2022

Identidade.


Núm 13:33 “…e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos.”

 


Nascida e criada em uma pequena cidade do interior do RS, eu cresci em uma casa simples, correndo livre no gramado de casa, subindo em árvores, me banhando no rio que passava ao lado. Eu também cresci em um lar evangélico, meus pais se converteram quando eu ainda tinha meus 6, 7 anos. Então eu cresci com valores cristãos, com muita oração, cresci acreditando que somos a imagem e semelhança de Deus. Aprendi tudo isso com meus pais, na igreja e hoje, eu e meu marido temos o cuidado de passar esses princípios e ensinamentos para a Nathália e a Isabely. 

Parte de quem somos, daquilo que reconhecemos ao nos encarar no espelho é fruto de certa influência genética e cultural que sofremos ao longo de nossa existência, mas 50% ou mais, é fruto da nossa memória implícita! Assim eu acredito que, se o que define nossa personalidade, são as percepções e interpretações que fazemos sobre nós mesmos, os outros e o mundo a nossa volta; logo, uma visão equivocada, como as crenças limitantes, podem nos paralisar em determinado momento de nossa vida, como o contrário também é verdadeiro.

Hoje chamamos de crenças limitantes o que a bíblia já trazia como sofismas. Quando depositamos nossa fé em qualquer coisa menor que Deus, nos frustramos, nos limitamos.

As armas com as quais lutamos não são humanas; pelo contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas.

Destruímos (sofismas) argumentos e toda pretensão (altivez) que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo. 2Co 10: 4-5


Aqui entendemos por fortalezas as barreiras emocionais intransponíveis e os sofismas, as mentiras propositalmente maquiadas por argumentos verdadeiros, para que possam parecer reais, nos tornando pessoas arrogantes, intolerantes e soberbos. Quando não temos discernimento, acabamos incorporando as informações manipuladas que recebemos e transformando-as em sentimentos tóxicos.

 O conceito de Inteligência Emocional (IE) surgiu no âmbito acadêmico, em 1990, formalizado pelos pesquisadores Peter Salovey (Yale University) e John Mayer (University of New Hampshire), que introduziram o termo na literatura científica por meio de dois artigos (Mayer, DiPaolo & Salovey, 1990). Definindo a Inteligência Emocional como a "Capacidade de perceber e exprimir (expressar) a emoção, assimilar a emoção ao pensamento, compreender e raciocinar com ela e saber regulá-la em si próprio e nos outros." (Mayer e Solovey 2000).E só em 1995, Goleman lança seu primeiro livro, como uma linguagem mais acessível. 

 Você conhece alguém que estudou na mesma escola que você, morou na sua rua, teve as mesmas oportunidades que você, mas que tiveram destinos totalmente opostos? Como podemos explicar que duas pessoas, com o mesmo desempenho escolar, o mesmo acesso à educação, que viveram uma infância sem muitas privações; tiveram destinos diferentes? Eu acredito que a resposta seria, autoimagem: dando um destaque para a memória implícita e a inteligência prática.

 A Inteligência Prática é a forma como adaptamos o nosso pensamento à situação que enfrentamos em determinada ocasião. Ela é o resultado da nossa autoimagem, que por sua vez está ligada a memória implícita. Ela é involuntária e aparece como uma reação automática em resposta a uma situação externa baseada em um conceito definido internamente, da concepção do tipo de pessoa que temos sobre nós mesmos.

Nossas ações, sentimentos, comportamentos e até mesmo nossas habilidades são sempre consistentes com a nossa autoimagem. O que acreditamos ser ou pensamos ser merecedores é o que nos faz avançar ou retroceder.

A Bíblia fala sobre os frutos do espírito, e um deles é o domínio próprio (autocontrole). Ele é reflexo do nosso autoconhecimento. O Autoconhecimento é responsável pelos questionamentos como o que eu deseja para minha vida, para qual propósito eu fui criado?

As verdadeiras histórias de sucesso tem mais relação com a coragem, ousadia, perspicácia e atrevimento, do que sorte ou oportunidade. O que muda a vida de uma pessoa é o quanto ela está disposta a se mover para tornar o seu sonho realidade, o desejo de ter uma vida melhor.

 Compartilho uma experiência minha: Em 2014, me candidatei para uma vaga de Assistente Financeiro na minha cidade, para esta vaga, haviam muitos inscritos, pelo bom salário e por ser um lugar importante onde se trabalharia. Eu apresentava quase todos os requisitos, porém não tinha curso de inglês, ou melhor, não dominava o idioma. Mas como eu queria muito aquela oportunidade, com um pouco de temor, eu fui me aconselhar com uma professora da faculdade e ela me respondeu: - E se você vencer o medo e tentar? Eu então tomei coragem! Acreditei que meu tinha o perfil procurado pela empresa. Fiquei entre as três finalistas e estava disputando a vaga com outras duas candidatas que possuíam inglês, mas minhas demais competências falaram mais alto a ponto de ser contratada.

Autoimagem positiva, te faz ter um pensamento positivo, acreditar que você tem condições de crescer, de viver uma vida plena, que tem chances de passar naquela entrevista de emprego, que é capaz de gabaritar aquela prova, de que consegue resolver aquele problema ou melhor, que você merece ser feliz! Essa força interior eu chamo de Fé, ela é quem abre caminhos e faz você olhar para um horizonte de possibilidades e não de medo e incertezas! 

O versículo citado no início se refere aos espias que foram enviados por Moisés para a Terra Prometida. Eu aprendi muito desse versículo em uma pregação que ouvi. Estas pessoas não acreditavam ser capazes de conquistar aquele lugar, e de fato, não conquistaram. Com exceção de Calebe e Josué.

Estas pessoas que viveram uma vida como escravos, ou como peregrinos no deserto, e não tiveram motivação, fé suficiente para se acreditarem merecedores daquela terra, muito menos capazes de conquistá-la, trabalhar nela e viver nela. Porém, Josué e Caleb, que viveram as mesmas dificuldades, estes, acreditando, foram os únicos daquela geração que entraram na terra prometida.

Eu também entendo que o fraco relacionamento que estes tinham com Deus os fez duvidar que Deus seria com eles na conquista da Terra Prometida e que os faria entrar, assim  como prometera. A fé em qualquer coisa menor que Deus, nos traz frustração, ansiedade, medo. Podemos até já ter ouvido falar de Deus, mas quando não praticamos a sua palavra, não criamos relacionamento sólido com seu evangelho, construímos uma casa na areia e assim, diante das dificuldades, por que não temos nem convicção em nós, muito menos fé o suficiente em Deus; não vemos saída, não conseguimos mudar de vida. Deus nos criou à sua imagem e semelhança, nos fez para sua adoração. Gabor Maté falou em uma de suas palestras que, porque os seres humanos são criaturas produtivas, realmente somos criados à imagem de Deus, então existimos para criar. Quando fazemos algum trabalho que não é criativo, que não reflete quem somos, isso implica em depressão, ansiedade, um sentimento de insignificância e quando temos um sentimento de insignificância, vamos querer substituir esse sentimento, ou o sentido de propósito que perdemos, por diversos outros tipos de atividades e então ficamos obcecados pela aparência, ou por como outras pessoas nos veem, o que podemos obter, o que podemos possuir, quais sucessos podemos alcançar, em outras palavras, todos substitutos falsos, que de maneira alguma podem compensar pela falta de um propósito genuíno.

O que determina o sucesso de um relacionamento é o quanto reconhecemos em nós o amor, a disposição em nós de cuidar do outro, de querer o outro ao nosso lado da maneira que ele é. Um relacionamento forte precisa de intimidade e com Deus não é diferente, para conhecer Deus é preciso uma rotina de oração, de leitura, de devoção, entrega. O quanto recebemos de Deus nada mais é do que o quanto estamos dispostos a buscar dele! “Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir e abrir, então entrarei e cearei com ele”. Quando assumimos a responsabilidade, estamos declarando não só que temos o controle sob nossas escolhas, nós também admitimos que somos responsáveis pelos nossos resultados. Quando escolhemos comprar mais do que podemos pagar, quando somos fiéis ou não, quando mudamos de curso, de trabalho, estamos externando uma escolha que fizemos baseados na liberdade que tomamos.

O segredo é ter uma vida de propósitos definidos (genuínos). Toda empresa que inicia seu ano, sem uma meta estabelecida, acabará perdendo a direção e o foco. Para o ser humano não é diferente. Precisamos descobrir o mais rápido possível qual é o nosso propósito central de vida, ele é quem vai nortear todo o restante.

Lembro muito de quando era pequena ser questionada sobre o que eu seria quando crescesse, seja pelos pais, ou professores, ou até amigos e líderes da igreja. Todas as perguntas vinham seguidas de sugestões de carreiras, e me confrontavam com aquilo que eu tinha definido como meu propósito de vida. Hoje eu não vejo tantos questionamentos para nossas crianças, ou jovens, e vejo uma certa liberdade tendenciosa. Tanto tem se falado de que o jovem tem tempo para escolher, de que tudo bem estar indeciso. Acredito que se trabalha muito mais a opção do deixa pra depois do que o olhar para dentro de si e criar coragem para assumir uma responsabilidade frente à vida adulta que se inicia.

 Não são poucas as pessoas que hoje venceram na vida, por que sim, foram desafiadas a definirem bem cedo os seus princípios e projetos. Precisaram se posicionar! Você almeja a felicidade, mas não define onde estão os padrões da sua felicidade, logo, é uma ilusão e não um sonho. O GPS, por exemplo, somente consegue traçar uma rota, quando é informado o destino. Nossa vida é assim. Nossa mente trabalha baseada nas projeções que fazemos.

Um propósito bem definido nos diz o que realmente importa em nossa vida, nos revelando as adequações que precisamos fazer em nossa rotina para atingir o resultado desejado. Quando você deseja passar em um concurso muito disputado, o plano traçado é estudar além do que a maioria estudaria. Se o seu objetivo é comprar uma casa, você define o tipo de casa, o valor que está disposto ou pode pagar e a partir daí cria as circunstâncias necessárias para tornar o seu projeto realidade, isso é disciplina.

Assim, fica claro que a forma como nos vemos  acaba nos prejudicando. se a nossa autoimagem for negativa. Em 1990, um pesquisador da Stanford chamado Joshua Aronson, realizou uma pesquisa para tentar entender e explicar o desempenho de dois grupos distintos de alunos. Havia uma diferença intelectual de até 15 pontos no desempenho de alunos brancos para afrodescentes. Ao aplicar o teste, foi solicitado que cada participante do primeiro grupo (composto por afrodescentes e brancos) se identificasse (nome, raça) e que a nota individual contaria para a média geral do grupo, e para o segundo grupo (composto por afrodescentes e brancos), a nota seguia o mesmo critério, porém não precisariam se identificar.

Apesar de todos os alunos possuírem o mesmo nível intelectual, o resultado dos dois grupos foi totalmente diferente.

 O estudo revelou que os alunos afrodescentes tiveram o mesmo desempenho que os outros quando a etnia não precisava ser identificada. O teste foi aplicado várias vezes, em vários grupos e o resultado era sempre o mesmo. Ficando evidente assim que os alunos eram dotados da mesma inteligência e capacidade intelectual, mas que a mesma era influenciada por situações culturais, onde em crença passada, os negros eram menos intelectuais.

Muitos de nós, e me incluo junto, crescemos sendo ensinados que para ter sucesso deveríamos ser perfeitos, ou seja, que o sucesso é o resultado da perfeição. E esse pensamento nos levar a crer que devemos reprimir alguns sentimentos, por não serem aceitos. A verdade é que deveríamos aprender identificá-los e tratar a cada um na sua particularidade. Eu passei um bom tempo da minha vida assim, insegura. Usamos o ressentimento gerado por esta revolta, e nos sentimos vítimas, tentando provar para o mundo que temos motivos para nos ressentir e que estamos certos em senti-lo; e se conseguirmos provar, teremos ganhado nosso troféu, o de estar com a razão. O ressentimento é uma resistência, mas não a aceitação de um fato que já aconteceu. E nesse caso não há como vencer, não sozinhos, porque estamos lutando contra algo impossível de ser mudado: o passado.

O processo de autoconhecimento precisa ser trilhado com calma, sem pressa. Precisamos nos conectar com nosso eu da infância, com nosso propósito genuíno. Precisamos guardar nosso coração de ensinamentos equivocados, não fomos criados para competir, fomos criados para amar, perdoar, afinar, somos seres afetivos.

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Pv4:23

"Quem não mudar seus pensamentos nunca será capaz de mudar a realidade e, portanto, nunca fará progressos. Anwar Sadat

 

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